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Ensino médio

Eu estava parado na frente de uma linha horizontal pintada no asfalto que representava a largada, como também a linha de chegada. Eu estava esperando Matias, ele não havia dado nenhum sinal de vida até agora e eu já começava a cogitar a possibilidade dele ter desistido da corrida. Quando, saindo pela porta externa do refeitório, a Gangue da Encrenca aparece:

- Ora ora ora ora ora ora ora ora ora... parece que o fracassado está com vontade perder feio e ser hummilhado na frente de todos. - Matias disse, enquanto a multidão se mantia em completo silêncio, nos observando.

- Cala a boca. - Eu falei muito baixo e com vergonha de ser um verme.

- O que você disse...? - Matias olhou perplexo, enquanto mordia o lábio, o que eu achei um pouco estranho.

- V-V-V-V-Vamos somente... iniciar a corrida por favor. - Eu, Ivo, disse.

E então Matias se posicionou ao meu lado, o que normalmente me desconcertaria profundamente contudo, neste dia, nesta hora, eu senti uma espécie de onda de tranqulidade passar por mim. Todas as vezes que jogaram comida em mim, todas as idas ao médico para botar minhas articulações no lugar, todas as secreções corporais que deixavam manchas policromáticas irreversíveis nas minhas roupas, todas os "retardado", "bicha", "imbecil", "viado" e "não tenho muita opinião sobre ele para ser sincero" passaram a ser preocupações triviais que não mais acorrentavam minha mente.

A corrida estava prestes a iniciar, o que me distraiu por um momento pois comecei a me questionar se eu estava bronzeado o suficiente ou se meu pau estaria fazendo volume nas minhas calças. As câmeras fixaram suas lentes em mim, a multidão tornou-se silenciosa, designers gráficos já estavam fazendo cards e títulos de manchete sobre minha execução, tudo estava perfeito. Quando, subitamente, escuto um magnífico grito:

- NÃOOOOOOOO. NÃOOOOO FAÇA ISSO!

Virei a cabeça para o campo de futebol americano, que era da onde a origem do som parecia estar vindo, contudo, eu não consegui distinguir muito bem quem era, muito provavelmente devido à quantidade cavalar de ansiolíticos cursando pelo meu sangue:

- VOCÊ VAI MORRER SE CORRER. NÃO POSSO VIVER SEM VOCÊ!

Foi aí que eu virei novamente minha cabeça e retornei a olhar para frente, ciente do fato de que, quem quer que fosse, estava se referindo ao Matias, já que todos na cidade querem que eu morra. Mas, curiosamente, por alguma razão inexplicável, percebi que minha genitália começou a ficar ereta, o que não fazia nenhum sentido já que não estava avistando estímulos apropriados para tal resposta corporal. Independente, isso me deixou feliz porque aumentaria as chances de aparecer um volume nas minhas vestimentas de baixo, o que elevaria a probabilidade das pessoas acharem que eu tenho um pênis grande.

- IVO! EU ESTOU FALANDO COM VOCÊ! - A voz pareceu estar bem mais próxima, o que poderia ser uma ilusão de ótica.

Me virei mais uma vez e aí finalmente reconheci quem era, correndo a toda velocidade em MINHA direção, gritando MEU nome... Pietra. Imediatamente compreendi porque estava com uma ereção, a voz da linda Pietra havia neuralmente me estimulado, resultando em uma excitação subconsciente, uau! Fiquei feliz em vivenciar essa cena mas, por um momento, pensei se isso não era algum tipo tentativa de assassinato precoce, baseado na suposição de que ela simplesmente não conseguiria esperar eu perder a corrida para morrer.

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